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ALGO DE ERRADO NÃO ESTÁ CERTO NESSE MERCADO

Em 1990 quando consegui meu primeiro emprego, lembro que com o meu primeiro salário eu comprei uma prancha de bodyboard zerada, no plástico. Lembro que em 1991, com o lançamento das BZ Diamond Pro, um colega da época comprou a prancha em 2x que era o máximo de financiamento (o famoso 30, 60 dias).
De 1992 a 1996 comprava pranchas em dólares aqui no Brasil e a mais cara custava 160 dólares. Me lembro também que as pranchas mesmo sendo stockboards (mesmas medidas para todos os modelos) eram feitas artesanalmente e por ai vai: muitas opções, vários fabricantes e muitos atletas excelentes, fora os campeões e o imbatível Guilherme Tâmega no auge!

O que mudou tanto do século 20 para o 21 em termos globais que as pranchas triplicaram ou mesmo quadruplicaram de valor? As grandes fábricas de bodyboard mundial, na qual concentram a maioria das marcas importadas, agora se encontram onde a mão de obra e os incentivos sempre foram acessíveis, porém será que mudou tanto assim o material ao ponto de um bodyboard valer tanto? 

As coloridassas pranchas BZ foram uma febre de consumo no Brasil.

Vamos comparar os preços das pranchas de surf dos campeões mundiais de surf Gabriel Medina, Italo Ferreira e JJ Florence com as pranchas de bodyboard dos campeões Guilherme Tâmega, Mike Stewart e Ben Player?

Esses dados são dos lançamentos 2021 das pranchas de bodyboard e de surf dos atletas de ponta e seus modelos, sendo que, no Brasil, as de surf estão disponíveis no site pranchanova.com e a de bodyboard no Brasil, a megaT-94 na Vortec. As outras no site australiano bodyboardking. Levando-se em consideração que a maior parte dos surfistas procuram shapers para fazerem suas pranchas, dificilmente veremos os modelos de surfboards acima em quantidades como vemos os bodyboards comparados nas praias.

O próprio mercado de pranchas de bodyboard admite que seus custos de importação são altos pelas taxas que nosso país pratica e de forma abusiva. Os atletas alegam que as pranchas importadas têm melhor acabamento, mais conforto e pegada para segurar a prancha e absorver o impacto nas fortes manobras. Não vamos entrar aqui no mérito da evolução das manobras porque realmente em termos de manobras aéreas e acrobáticas o bodyboarding é mais plástico e mais insano. Quantos atletas já relataram que “cuspiram sangue” ao retornar de um aéreo numa onda de 2 metros ou mais?

Neymara vencendo no tour mundial com prancha nacional Genesis.

Voltando 25 anos no tempo e no início da matéria, tínhamos várias marcas e fábricas no Brasil, produzindo muitos atletas e campeões de qualidade. As pranchas importadas não faziam tanta diferença na performance como hoje e isso não são palavras minhas e sim dos atletas tanto de ponta quanto os de final de semana e os masters. Quantas fábricas de pranchas de bodyboard temos no Brasil hoje? Uma ou duas. Temos marcas “made in Brazil” produzidas em Taiwan que procuram trazer um preço justo pela qualidade oferecida, porém ainda bem acima do custo se analisarmos o padrão de vida do bodyboarder brasileiro, devido aos altos impostos. 

Tudo isso levanta uma série de perguntas globais, porque a crise no bodyboarding também é mundial, nas quais tentarei não fazer comparações com o surf. 

Antigo top do tour mundial nos anos 90, Aquino tem seu modelo na Genesis hoje em dia.

Não temos mais público para fazermos pranchas profissionais para venda ou barateamos o esporte sem continuar o trabalho de popularização?

Não temos mais público para criar marcas de roupas que criem identidade para os admiradores do esporte ou não temos mais reconhecimento nem mesmo da parte dos atletas em todas as esferas?

Não temos mais ídolos que inspiram os mais jovens a procurarem escolinhas ou mesmo não temos mais escolinhas de bodyboard bastante para formar atletas de ponta?

As novas gerações deixaram de seguir o legado dos grandes campeões mundiais?

Outro sucesso de vendas no Brasil, as WaveRebel modelo do Campeão GT.

Será que a internet rifou o esporte de tal forma que impede o lançamento de revistas e programas especializados em canais abertos? Interessa mais a um bodyboarder atualmente ganhar curtidas, compartilhamentos e parceiros ou mimos do que títulos e patrocinadores que pagam salários e viagens?

Será que não vale mais competir pois a premiação mal cobre as despesas de viagem e estadia?

Será que a organização mundial ainda continua a gerenciar o Bodyboarding sem profissionais que vendam bem o esporte e isso reflete nas associações e entidades dos países?

Será que caminhamos a passos largos no Brasil para que o esporte se torne elitista, ou seja, só tem equipamento bom quem estiver disposto a pagar caro?

São tantas perguntas que só o tempo e aqueles cuja vontade de reerguer o esporte podem responder.

E eu espero, assim como tantos outros bodyboarders da geração 80/90, que possamos tirar esse período atípico para começarmos uma nova revolução no esporte, começando pelo Brasil e incendiando atletas pelo mundo afora.

Por Alex Muniz (Coluna Soltando o VerBBo!)




There are 8 comments

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  1. Henrique

    Show mano, apavorou na matéria!!!
    Várias incógnitas tem no nosso esporte!!!
    O custo do material aumentou muito e o material nem tanto.
    As grandes empresas do mercado só querem likes e não produzem material acessível para nós amantes do esporte.

    • Elmo Ramos

      Olá Henrique. Ao escrever esse texto pra Ride It!, a minha intenção é fazer com que nós, amantes do esporte possamos compartilhar essa matéria e postar sugestões. São várias incógnitas que vagam sem respostas durante anos, criando esse intervalo, ao qual foi determinante para a hibernação do esporte. Todas as colaborações são de essencial importância para, no momento oportuno, mostrar que somos e podemos sim, num mercado consumidor popular e que merecemos sim, pranchas que não deixam nada a desejar em custo x benefício para todos desde a evolução até a alta performance.

  2. Luis Renato Angelis

    Muito importante fazer esses questionamentos … o Bodyboard está evoluindo, apesar de ter perdido espaço na mídia e com isso perdido visibilidade e reconhecimento sobre o quanto nosso esporte é forte e vitorioso para o Brasil.

    O Mercado das pranchas também voltou a crescer e com a evolução dos equipamentos o valor tende a subir. Isso agrega valor ao esporte. Equipamentos com mais tecnologia e matéria prima adequada, tudo isso soma mas não deve extrapolar os limites do consumidor nacional.

    Acredito que o ponto de equilíbrio hoje para manter o Bodyboard crescendo de forma ativa e saudável, com mais visibilidade e reconhecimento, são as ESCOLINHAS. Esse trabalho é a base fundamental para a evolução e continuidade do Bodyboard Brasileiro.

    Tamo junto Ride IT! Sobbre Viver
    Vida Longa ao Bodyboardind

    • Elmo Ramos

      LUIS RENATO, exatamente meu brother! é colocar o bodyboarder e amante do esporte não somente para pensar e sim para executar. Vivemos num mercado continental, somos ainda uma super potência no esporte e agora precisamos nos impor trazendo novidades. Quantos de fato consomem produtos de empreendedores bodyboarders? não falo de prancha e pé de pato, mas camisas, bermudas, óculos de sol, bonés, calçados (sim, temos um atleta brasileiro com parceria com calçados novamente). Nos anos 90 tivemos um circuito com patrocinadores totalmente fora do mercado surfwear porque se identificaram com a cultura do bodyboard, dita por alguns atletas infelizmente, que o esporte não tem um lifestyle. Esse ajuste de mente tem que começar a ser planejado agora para que as próximas gerações possam consolidar esse esporte como grande.

  3. PcTonini

    Matéria excelente, sem duvidas estamos passando por um momento muito complicado em nosso tao amado esporte, pratico o bodyboarding a mais ou menos 10anos me considero como a nova geraçao pois quando comecei já via uma galera local aqui quebrando nas ondas e mostrando muita qualidade nas manobras e tubos, em contrapartida percebo que hoje eh um esporte praticamente em extinçao, pelo menos aqui onde eu moro em Baln.Camboriú – SC nao vejo novos praticantes, nao temos outros atletas em treinamento para competiçoes mais novos do que eu, temos algumas praias que sim sao mais frequentadas por bodyboarders devido ao tipo de sua onda, mas em ambito geral predomina o surf de quilhas.
    Queria poder fazer mais pelo esporte, mas tenho que trabalhar para sobreviver e treino nas poucas horas livres que tenho, pois trabalho 2 turnos todos os dias praticamente, o que mais me motiva a nao desistir desse esporte é o amor que tenho por ele, a felicidade que me traz a cada tubo, a cada manobra que completo, e tenho muita Fé que um dia essa situaçao ainda pode mudar e melhorar para recebermos a valorização o reconhecimento devido que nosso esporte e atletas merecem, se depender de mim o bodyboarding ainda vai viver muito!!

    Tamo junto!! Att @PcTonini

    • Elmo Ramos

      PC, agora imagina a situação: você tem um potencial enorme dentro do esporte até mesmo para competir num circuito mundial e ser campeão, mas… quem pode te tirar de 2 turnos de trabalho e pagar um salário digno para você se tornar um atleta verdadeiramente profissional, no qual você pode trazer recursos de sustento para a sua família? vai ter gente dizendo que o surf não dá isso… DISCORDO TOTALMENTE! Quanto realmente Mike, GT, Pierre, Hubb ganhariam se esse talento que têm no bodyboard fosse no surf? ah, mas o bodyboard… pois é. O grande erro é que os organizadores, comissões e atletas (me coloco nesse pacote por desistir do cenário de competições em 95, ao invés de gritar) se contentaram em ser os 10% do orçamento. Forte, doloroso mas libertador. TEMOS CONDIÇÕES DE CRESCER! e é vital tomar o rumo vertical para criar um novo cenário e positivo para o esporte que somos apaixonados

    • Elmo Ramos

      A CHANCE DE UM NOVO COMEÇO ESTÁ NAS SUAS MÃOS, PRESIDENTE. LEMBRE-SE DA ÉPOCA QUE ERA COMPETIDOR E COLOQUE ISSO NO PAPEL, NA PLANILHA, NO CELULAR E NO CORAÇÃO.


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